Aquela era a hora a que se levantava o vento. O sol escaldante até aí, escondia-se atrás das nuvens que se acumulavam, enormes e cor de chumbo. O dia arrefecia e escurecia antes de tempo e, ao longe, ouvia-se o ribombar dos trovões.
Era a estação das águas e, cada dia, à canícula sucedia-se o dilúvio.
Era a hora em que sabia bem ficar em casa no aconchego. Sucumbir ao conforto de uma bebida quente e à leitura de um livro. Mergulhar nas histórias de outras gentes, outros tempos e outros lugares.
Há quase um ano que se mudara para aquele lugar, do outro lado do mundo, para uma terra cor de esmeralda. Sentia a saudade do que deixara e o fascínio das coisas novas que encontrara.
Esta era a terra do chocolate, do café e dos
chiles, do doce, do amargo e do picante, tal como era do sol, da chuva e do trovão...
Agora era a hora de ficar a ver as bátegas e os raios cair lá fora, enquanto saboreava o chocolate quente.
Ingredientes:
2 chávenas de leite
1/2 vagem de baunilha
1/2 pau de canela
1 malagueta (chile)
100 g de chocolate negro (mínimo 70% de cacau)
Natas batidas
Açúcar amarelo ou demerara
Raspas de chocolate, cacau em pó ou canela, para decorar
Rum, Cognac ou Amaretto, para aromatizar
Colocar o leite, a vagem de baunilha (aberta ao meio e com as sementes raspadas), a canela e a malagueta (cortar ao meio e deitar fora as sementes para não ficar demasiado picante), em lume brando e deixar aquecer até fervilhar, permanecendo assim por cerca de um minuto. Juntar o chocolate em pedaços e mexer até que derreta. Retirar do lume e reservar durante cerca de 10 minutos para que os diversos aromas se libertem e fundam. Retirar a vagem de baunilha, a canela e o resto da malagueta. Voltar a levar ao lume e deixar levantar fervura. Servir em chávenas ou canecas. No meu caso não acrescentei açúcar, mas se acharem demasiado amargo podem acrescentar açúcar a gosto.
Consoante os gostos, pode aromatizar com uma colher de chá (ou mais!) de uma bebida alcoólica. Para manter o espírito latino-americano, optei por um rum envelhecido (mais parece cognac!). Pode ser tomado simples ou com natas batidas, decoradas com raspas de chocolate, com cacau em pó ou com canela.
Esta receita segue, de forma aproximada, a sugerida por Joanne Harris no seu livro
The French Kitchen e que pode ser encontrada
aqui. Quem leu os romances
Chocolate e
Sapatos de Rebuçado, e se encantou com as receitas de Vianne, certamente se lembra do seu chocolate quente. Também ela era a mulher levada pelo vento para terras diferentes e distantes...
O
post de hoje, com a sua receita e a pequena história (não totalmente fictícia!) no início, reflecte a participação do Cravo e Canela no evento
Chocolate e Picante: um desafio de receitas com histórias dentro, que nos foi lançado pela Suzana do
blog Gourmets Amadores. Este desafio surge na sequência do recente lançamento do livro
Picante, pela editora Casa das Letras, que se vem juntar ao já publicado
Chocolate, na apresentação de histórias, de diversos autores nacionais, onde os sabores, tal como as emoções, fazem parte da história. Há combinação melhor?
Espero que gostem, da história, da receita e dos livros!